Poemas em português

MESTER DE HOTELARIA

Subiu comigo atè ao quarto,
vi como acendia um cigarro e falava
no corredor a um papagaio cinzento e amarelecido de nicotina
ou de vómito. A luz esvaída, áspera,
do fluorescente reflectia-se nos seus olhos.
Cambaleava, desabotoou a blusa
e deixou mal dobrada a saia sobre o catre.
Senti horror,
e um desejo imediato de estar bêbado como ela.
Mexeu-me debaixo da roupa e acendeu
outro cigarro e deixou-o nos meus lábios.
Não soube para onde olhar, quer dizer, como
agradecer a carícia.
Talvez tivesse sido o combinado.

(Tradução de Joaquim Manuel Magalhães)


 

5 [Feira da Ladra]

No seu olhar, o sono em atraso
e pouco empenhamento na paisagem
espessa do outono. Os feirantes
gritam sem ilusão as ilusões

e levantam as peças mais lustrosas
à passagem dos vultos indolentes.
Repete-se a imagem, nos seus dias
apenas muda a cor que oferece o céu.

Quem lembra o albatroz, tosco e inábil
na coberta? Ninguém fala de símbolos,
amanhã venderão em outra feira,

e no meio haverá uma estrada,
almas e almas, baldios, sinais,
e uma nota no livro de contas.
 (Tradução de Joaquim Manuel Magalhães)


RELATOS  1

Se lhes pergunto o que desejam, dizem
que nada, que apenas olhavam móveis
por gosto, a passar a tarde. Juntos
os corpos, falam baixo: o armário
terá de ser maior, procuraremos
uma cómoda alta aonde caiba
a roupa de bebé quando crescer,
os brinquedos: mais velho saberá
a cor da sua infância. Dão voltas
para voltar à cama de casal
de elegantes mesas de cabeceira.
Nunca olham o preço, que não podem
pagar. Os vendedores por detrás deles
riem-se, rio-me também, esqueço
como escolhi os móveis por catálogo,
uma noite, ao fechar a loja. Só.

(Tradução de Joaquim Manuel Magalhães)