Poemas em português



ORAÇÕES 

Mostra-mo a janela do quarto.
A luz desenha-o com pulso firme,
a claridade matiza-o
com manchas de pintor impressionista
numa tela de areia.
Mostra-o, mas não o entrega.
O espaço. O cheiro da terra húmida,
folhas dispersas pelo canal,
lampejos de limão maduro,
fragrância das rosas
quando amanhece, sinfonia
caótica de pássaros, canção
da chuva nos canos
e nos vidros. O espaço
está em mim,
embora não o possua. Em mim persiste
se o contemplo da janela.
Não me mostra o que vou vendo,
mas aquilo que sou.

(Tradução de Maria Soledade Santos)




MESTER DE HOTELARIA

Subiu comigo atè ao quarto,
vi como acendia um cigarro e falava
no corredor a um papagaio cinzento e amarelecido de nicotina
ou de vómito. A luz esvaída, áspera,
do fluorescente reflectia-se nos seus olhos.
Cambaleava, desabotoou a blusa
e deixou mal dobrada a saia sobre o catre.
Senti horror,
e um desejo imediato de estar bêbado como ela.
Mexeu-me debaixo da roupa e acendeu
outro cigarro e deixou-o nos meus lábios.
Não soube para onde olhar, quer dizer, como
agradecer a carícia.
Talvez tivesse sido o combinado.

(Tradução de Joaquim Manuel Magalhães)


5 [Feira da Ladra] 

No seu olhar, o sono em atraso
e pouco empenhamento na paisagem
espessa do outono. Os feirantes
gritam sem ilusão as ilusões

e levantam as peças mais lustrosas
à passagem dos vultos indolentes.
Repete-se a imagem, nos seus dias
apenas muda a cor que oferece o céu.

Quem lembra o albatroz, tosco e inábil
na coberta? Ninguém fala de símbolos,
amanhã venderão em outra feira,

e no meio haverá uma estrada,
almas e almas, baldios, sinais,
e uma nota no livro de contas.

(Tradução de Joaquim Manuel Magalhães)


RELATOS  1

Se lhes pergunto o que desejam, dizem
que nada, que apenas olhavam móveis
por gosto, a passar a tarde. Juntos
os corpos, falam baixo: o armário
terá de ser maior, procuraremos
uma cómoda alta aonde caiba
a roupa de bebé quando crescer,
os brinquedos: mais velho saberá
a cor da sua infância. Dão voltas
para voltar à cama de casal
de elegantes mesas de cabeceira.
Nunca olham o preço, que não podem
pagar. Os vendedores por detrás deles
riem-se, rio-me também, esqueço
como escolhi os móveis por catálogo,
uma noite, ao fechar a loja. Só.

(Tradução de Joaquim Manuel Magalhães)


UN SENHOR DE AZUL

e de barba por fazer. Aproveita
a época baixa, o desdém
de algum jovem desiludido
para tentar, uma vez mais, o amor.
Passeia sem ninguém a acompanhá-lo.
Dorme pouco. Não teve nada e agora,
na cidade, basta estender a mão:
os livros estão todos, corpos sempre
aguardam nesse bar conhecido.
Basta passar a porta que o faça feliz.
Por isso ano atrás de ano se veste
de azul, descuida o seu aspecto, fuma,
e regressa na época baixa
ao lugar afastado. Tal como então.

(Tradução de Joaquim Manuel Magalhães)